quarta-feira, 14 de junho de 2017


TIM-TIM

Sei sempre que errei.
Com eco e tudo.
O rochedo e o medo.
A pedra.
Gosto de olhar
Os miúdos do pó,
Os olhos nos olhos
Dos que vão em vão. Só,
Me deixo em pontos de embarque,
A humana ida.
Para alguém que não espera
Almas que não se encontram,
Ecos e granitos que rezam.
Moedas em bolsos furados
E os ônibus que nunca chegam.
As igrejas que ainda batem os sinos
E não me ouvem.
As folhas secas de inverno
Nas mãos dos cegos de ocasião.
A página virada no escuro
De todos os dias em vias
De ser e nunca serão.
Às vezes, os ecos se fazem mudos.
É quando as formigas se divertem
Em festas secretas.
E, por nada fazer, durmo
De mãos abertas.
Um morno que me acrescenta em frios idos.


terça-feira, 30 de maio de 2017


LÁ LONGE NA BAHIA

Morta minha mãe
A facadas.
Criado por minha avó,
Arrasto carroça.
Gosto de alguma coisa
Que me entre pela boca,
Dendê, pimenta e o...
Pelo pulmão,
Tabaco, maconha e o...
Que me entre pelos olhos,
O azul do céu, a alegria de crianças e o...
Quando estou doente,
O chão de meus asfaltos.

segunda-feira, 29 de maio de 2017


O BÊBADO E O MAR

A embriaguez é uma forma peculiar e, ao mesmo tempo, comum de reclusão; você se encharca de um líquido estranho ao corpo, que o atira a um processo de dissolução em que todas as atitudes sociais estabelecidas se dissipam; quando esses nós rígida e prolongadamente atados, impostos e autoimpostos, ao longo da vida pública, se estilhaçam na explosão do porre e na aniquilação da ressaca; como o mar ao não se conformar com os limites impostos pelas barreiras naturais e artificiais à sua expansão.

Repare como o bêbado assim como destrói o que fisicamente o cerca através de pancadas, tombos e trombadas involuntárias, destrói-se no desarticulado da elocução, excessiva e inutilmente expandida - o interlocutor fugiu pela janela - diluindo-se  no líquido que anteriormente ingeriu; num contínuo alternar-se entre maré cheia e vazante, esta, a reclusão do autoengolir-se quando não mais restam garrafas e copos a esvaziar e nem esqueleto firme para sustentar-se, restando-lhe as horizontais do chão e da cama. E o horizonte de seus próprios monstros. Submerso sob a superfície da solidão inexorável, comum a todos, que, inevitavelmente, também desaparecerão. Farelos de memórias.


Marés influenciadas por uma segunda, antiga e incógnita lua que orbita em torno de uma existência subitamente percebida como precária e destituída de sentido. Então, os outros vão embora - às vezes, para sempre. Resta-lhe recolher os cacos e andrajos para mover-se de novo, pública e privadamente, na perversão da autocomplacência ou na urgente necessidade de deslocar a vida para a frente. Sem novamente saber bem pra quê. Como o mar, o bêbado anda deitado.

fotografia de Vivian Maier

SOBRE A SONHAÇÃO
a Juliana

O sonhador é sempre suspeito, porque manipulado pelo sonho. Ao narrar o sonhado - o que já fez para si - o submete à lógica da narrativa em vigília, impregnada do trinômio causa-consequência-efeito, tão estranho ao evento onírico. O sonho é memória em desordem, desenraizada, como imaginação alucinada, sua análoga; em si, o sonho já é tentativa de apreender matéria simbólica errática, indestinada, que, a todo instante, escapa dos grampos da racionalidade.

Ocorre que, sem o sonho, a pessoa acaba prisioneira de sua incompletude natural, de seu indelével vazio. O sonho a preenche e ilumina o escuro de seus mais íntimos abismos - um milagre. Quando um outro se põe a interpretá-lo, ou pelo menos tenta, escolhe tarefa das mais ingratas e infrutíferas - a interpretação é uma caça cega a um inefável sentido, tão cara à poesia - o que não lhe tira o mérito nem a generosidade, do amigo(a) ou do(a) profissional. É quando a intimidade, por pudor, se faz tentacular. E a interpretação tem, de mim, toda a gratidão.


A. R. Falcão - maio de 17

sexta-feira, 26 de maio de 2017


VERDADEIRO AMOR

Nesses tempos bicudos, a convivência sadia entre caninos e humanos decaiu da serenidade e temperança para a mania bovina à beira da patologia (cão agora é "meu neném") - grandes manadas possuem cachorrinhos peludos, mormente nas áreas densamente povoadas. A meu juízo, o caso que segue traz alguma lições.

Ele morava sozinho e tinha um cãozito (assim o designava). Trabalhava na Secretaria da Fazenda - era um barnabé. Pela manhã, saía e só voltava no início da noite. O animal ficava só, portanto, o dia inteiro. Deixava uma tigela com ração e outra com água. Depois de jantar, abraçava o animal contra o peito, com intensa demonstração de amor, e ligava a televisão. Como é fácil imaginar, o animal latia sem tréguas durante a solidão. Parecia nunca se cansar. Os desesperados vizinhos ameaçaram matá-lo pelos latidos intermináveis, agudos e irritantes e por julgar o procedimento do barnabé um claro "abandono de vulnerável". O solteirão declarava pelos corredores que sempre amou os animais, todos, qualquer um. Impediram-no de criar cobras ali. Informado do sofrimento canino, decidiu não mais trabalhar; Biubiu em primeiro lugar. Assim, acalmou os vizinhos e mitigou a carência do maldito gritador.

Alguns meses depois, próximo do despejo e desempregado, começou a latir - um ganido grave e brando. Biubiu, feliz da vida, com tigela de ração no parapeito, passou a sorrir na janela. A felicidade dos guris do bairro. Como se sabe, a felicidade dura pouco e, no Brasil, o fundo do poço tem porão. É só aguardar que, logo logo, um parlamentar amalucado - nossa especialidade - apresentará um projeto de lei, proibindo a posse de cães histéricos por viúvas(os) solitárias(os) ou quaisquer mamíferos de forma humana que vivam sós, apenas na companhia de peludinhos. Nosso solteirão segue acorrentado em clausura, em cômodo provido de isolamento acústico, com direito a ração e limonada, que adora. Estamos no Brasil.

Em tempo, este autor teve muitos cães, mas em casas com quintais; nunca em apartamento, uma crueldade.


terça-feira, 23 de maio de 2017

        
TOME

O dedo de si
Sob a pele, entre células,
O lápis, o eu de mim
Atrás, não dentro.
O papel, o vendedor de fígados,
De cérebros.
Eu e minha mão.
Estava eu mesmo
Sob a mangueira,
Tentando entender a "brigueilheira",
A "abeilheira" que melhor me deu a pica,
A dor de uma só.
Foi quando entendi.


sexta-feira, 28 de abril de 2017


A VIAGEM

Nada a dizer da roseira
Que brota no lago congelado.
Também a dizer nada
Sobre a carnificina universal.
Não me espanta que criem
Deus ou deuses, espíritos de quaisquer ordens
Diante do abismo ensolarado,
Chamado por alguém
"O Terror Sagrado".
Prefiro o silêncio ou a pena
Quebrada que mal escreve
Frente ao branco do papel,
A janela que se abre para mim,
Como espelho rachado na lixeira.
Prefiro amar o mistério, o desconhecido
Para seguir sempre adiante
E não congelar-me nos gessos religiosos
Ou doutrinários dos demiurgos de botequim.
Prefiro vagar, sem velas, no veleiro oceânico
E inútil das horas que passam;
Onde não me encontram
Nem me fazem perguntas;
À espera de que Ela,
De mim, faça pó e cinzas
Ou me ofereça aos vermes
Vorazes.