segunda-feira, 16 de outubro de 2017


PREVISÃO DE TEMPO

Há um deslocamento
De  cavalos;
Um movimento de baratas
Nos solos de verão;
Brotos, sem pedir licença,
Inundam as árvores;
Flores inconvenientes
Aparecem na fronde dos vegetais;
Todos os mariscos reclamam,
As formigas estão em férias
No hemisfério norte.
O governo federal pensa
Em queimar tudo.
Eu dobro o travesseiro
E fecho os olhos
Na minha pobre melancolia.

AÍ FOI

Na comparação de corpos,
Mede-se a dor.
Alternadamente, um abre a janela,
Outro
Fecha a porta
Enquanto os sabiás se acasalam.
A primavera vem com fome,
A que não existe.

De todos os lençois
Sob os quais me deitei
Um
Diz não sobre meus desígnios:
O último,
O que esperava sem ânsia,
Com muita paciência,
Sem ciência.
Era povoado de ecos dos que
Um dia me vestiram.

terça-feira, 26 de setembro de 2017


TRISTE

Primeiro você pisa
Na planta nascente.
Ela não tem nem como
Manifestar-se.
Você é adolescente,
Expressa-se por boné,
Tênis e língua estranha.
A planta morre,
Você também
Pela lixa que o consome,
Estúpido como a sola.
O grito inaudível e
A solidão de uma arrogância
Que não libera os mares.
Você não viaja, não ama nem é amado
E fecha a mão na masturbação
Morta. Você é um sucesso.

terça-feira, 29 de agosto de 2017


E O BOI DORME

Brasileiros gostam de brincar de casinha sob a tutela do estado. Aqui, parece, para a democracia bastam eleições. Assim: grosso modo, candidatos patifes, eleitores imbecis. Eleições convenientemente caríssimas. Tudo é obrigatório: votar, haver partidos devidamente registrados, candidatos pertencerem a eles, horário eleitoral nas media, domicílio eleitoral e financiamento público de campanha (fundo partidário). É um negócio bilionário a portas fechadas, como futebol e certas religiões. Não pode dar certo, acaba sempre mal (para nós outros). Como pano de fundo, os clichês, vazios como é de sua natureza, "os lugares comuns das retóricas mortas"*: autoestima, cidadania, empoderamento, protagonismo, sustentabilidade, reformas, transparência, inclusão e por aí afora. Argh! Paga e toma, que é teu.


* G. Greene.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017


A FUGA

Vi todas essas árvores crescerem,
Florescerem e desfolharem.
Vi os pássaros nascerem e morrerem.
Fui amigo de todos os cães vadios
Que serviam-se de meu sangue
Excedente.
Até que, um dia, desapareceram,
Como todos os vizinhos.
Aí, os insetos secaram
E o dia nunca mais nasceu.
A noite em mim adormeceu.
Por fim, nunca mais sonhei.
Deixei-me tomar por um mar
De memórias
Dos outros; de mim
Ninguém mais se lembra.
Trilhos se rebelaram
E o trem voltou pra casa.

terça-feira, 22 de agosto de 2017


MORTE

Terás teu tento
O campeonato é teu.
Tudo sorrirá por ti.
Dormirás na grama
E o céu abrirá as portas.
Depois ficarás nu,
Saberás teus limites
E não procurarás um médico.
Sabes que vais morrer
Tão logo o sabiá entrar
Em cantos roucos,
As visitas começarem a chegar
Em peso.
Então, alertarás:
Todas as cobras estão soltas,
Os gatos, mortos,
As gavetas das facas, abertas
E teu legado são as avencas
Abertas. E morrerás por fim.
O portão fechado num não.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


FELICIDADE

Mulheres ...
O que querem as mulheres?
Não sabe. Teve muitas.
Nesse caso, ter é verbo podre.
Não aprendeu nada.
O que querem as pessoas?
Muitas passaram por ele.
E ele por elas.
O que querem as pessoas?
Dizem que é amor.
Ele não passeia neste parque.
Não gosta muito de si.
Existir o aborrece.
Melhor é não ter nascido.
Abraça, só, a vida nele. E já é muito.
Encanta-se com os bichos.
O sol e os passarinhos lhe dão bom dia.
Quem diria?
É feliz a seu modo.
Só e apenas.